Etapa 01 · O diagnóstico

A conta que ninguém te mostra

Quanto de imposto está escondido na comida, na luz e no gás — e o que sobra do salário mínimo depois de pagá-lo.

A conta que ninguém te mostra

Três despesas que nenhuma família consegue evitar: a comida, a luz e o gás de cozinha. Quem ganha pouco pode deixar de ir ao cinema, adiar a troca de roupa, cortar o delivery. Não pode deixar de comer, de ter luz em casa e de acender o fogão.

Em cada uma delas, uma parte grande do que você paga não é o produto — é tributo. E ele vem de dois donos diferentes. Saber qual é qual não é detalhe técnico: é o que permite cobrar a pessoa certa.

Tributo federal — cai por Medida Provisória, no dia da publicação ICMS — dos estados, cai por convênio dos 27 governadores O produto em si
Cesta básica de alimentos R$ 952,20  ·  São Paulo, maio de 2026
R$ 205,44  ·  21,6% R$ 737,95 — a comida
Federal: R$ 8,81. Era zero até março de 2026 — voltou a ser cobrado em abril. Estadual: R$ 205,44, quase toda a conta.
Conta de luz residencial conta de R$ 100,00  ·  120 kWh
R$ 18,60 · 18,6% R$ 14,70 R$ 66,70 — gerar, transmitir e distribuir
Federal: PIS/COFINS (3,4%) mais os encargos setoriais criados por lei da União, como a CDE (15,2%). É a única das três contas em que a maior fatia do tributo é federal.
Botijão de gás de 13 kg R$ 114,52  ·  média Brasil, junho de 2026
R$ 19,11 · 16,7% R$ 95,41 — o gás, o transporte e a revenda
Federal: zero — PIS/COFINS já estão zerados. Todo o imposto do botijão é ICMS, fixado em conjunto pelos estados. Nenhuma medida federal baixa esse preço.

O que sobra do salário mínimo

Percentual é abstrato. Em reais, para uma família que vive de um salário mínimo — compra a cesta, paga a luz e usa um botijão a cada dois meses:

Item Gasto por mês Federal Estadual Imposto por ano
Cesta básica de alimentosR$ 952,20R$ 8,81R$ 205,44R$ 2.571,00
Conta de luz de 120 kWhR$ 100,00R$ 18,60R$ 14,70R$ 399,60
Botijão, um a cada dois mesesR$ 57,26R$ 9,55R$ 114,60
TotalR$ 1.109,46R$ 27,41R$ 229,69R$ 3.085,20

Agora ponha o salário ao lado da conta. O mínimo é de R$ 1.621,00. Comer, ter luz em casa e acender o fogão custam R$ 1.109,4668% do salário. Sobram R$ 511,54 por mês para aluguel, ônibus, botina de trabalho, uniforme e material escolar, remédio, sabão, o presente de aniversário da criança e qualquer imprevisto do mês.

E o imposto embutido nessas três contas — R$ 257,10 por mês — é exatamente metade de tudo o que sobra do salário para o resto da vida.

São R$ 3.085,20 por ano: quase dois salários mínimos inteiros, pagos em tributo apenas para não passar fome, não ficar no escuro e conseguir cozinhar. Nenhum centavo disso pergunta quanto a família ganha. Quem recebe cem vezes mais paga exatamente o mesmo imposto no quilo de arroz.

Por que isso pesa mais em quem tem menos

Quem ganha um salário mínimo gasta praticamente tudo o que recebe em consumo: comida, luz, gás de cozinha, transporte, roupa. Cada real desses carrega tributo embutido no preço.

E não parou na cesta básica. O corte linear de abril de 2026 não escolheu alvos: junto com os produtos agropecuários, ele religou o tributo federal sobre itens de higiene pessoal e sobre derivados de leite. Papel higiênico, sabonete, pasta de dente, absorvente, iogurte, queijo, leite em pó — tudo o que estava isento passou a pagar 10% da alíquota cheia, no mesmo dia e pelo mesmo mecanismo. Não é um aumento único: é uma régua que corta uma fatia dos benefícios a cada rodada, e quem paga é sempre quem gasta a renda inteira em produto de prateleira.

Quem recebe R$ 500 mil por ano em dividendos consome uma fração da renda e guarda o resto. Sobre essa parte, durante trinta anos, não incidiu nada: a distribuição de lucros era isenta de imposto de renda desde 1995. Isso mudou em janeiro de 2026, com a Lei nº 15.270, de 2025 — mas mudou pouco. A retenção é de 10%, e só sobre o que passar de R$ 50 mil num mês pagos pela mesma empresa.

O trabalhador paga até 27,5% sobre o salário e ainda paga imposto toda vez que compra pão. O rentista paga, no máximo, 10% — e só se não souber dividir a distribuição entre duas empresas. É essa inversão que a Medida Provisória corrige.

As três portas que a lei de 2025 deixou abertas

Não se trata de inventar um imposto exótico. O Brasil demorou trinta anos, mas em 2025 aderiu ao que praticamente todo país desenvolvido já faz: dos 38 membros da OCDE, apenas Estônia e Letônia não tributam dividendos. A questão agora não é se tributa, é a quanto.

PaísImposto sobre dividendos
Irlanda51%
Coreia do Sul44%
Dinamarca42%
Reino Unido e Canadá39%
Estados Unidos29%
Média da OCDE24,7%
Brasil, desde 202610%

Dez por cento é menos da metade da média da OCDE, e é uma alíquota única — quem recebe R$ 60 mil por mês paga o mesmo percentual de quem recebe R$ 6 milhões. A Medida Provisória propõe faixas de 10%, 20% e 30%, chegando ao teto só acima de R$ 5 milhões por ano. Isso ainda é abaixo do que cobram Irlanda, Coreia, Dinamarca, Reino Unido e Canadá. Quem chamar isso de radicalismo terá de explicar por que o Canadá é mais radical.

E as três portas que ficaram abertas

Em novembro de 2025 o Congresso aprovou a Lei nº 15.270, que entrou em vigor em janeiro de 2026 e encerrou trinta anos de isenção total sobre dividendos. Foi um avanço real, e é honesto dizer isso. Mas o desenho tem três frestas por onde a renda alta continua passando.

O que a lei fezA porta que ficou aberta
Retém 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil num mês O limite é por empresa pagadora. Distribuir R$ 45 mil por mês a partir de três holdings soma R$ 135 mil sem acionar retenção nenhuma
Fixa a alíquota em 10% É alíquota única. Quem recebe R$ 60 mil por mês paga o mesmo percentual de quem recebe R$ 6 milhões. Salário é progressivo até 27,5%; dividendo, não
Cria o imposto mínimo da pessoa física, com teto de 10% acima de R$ 1,2 milhão por ano Rendimentos de fundos imobiliários e do agronegócio seguem isentos e ficam fora da base do imposto mínimo. Quem vive de renda de FII pode receber milhões sem acionar nada

O país já decidiu que dividendo se tributa. Essa briga foi vencida em 2025. O que falta não é convencer ninguém do princípio — é fechar as três portas.

A indústria brasileira não está lucrando — está sobrevivendo

Existe uma ideia de que a carestia vem da ganância do empresário. Os balanços dizem outra coisa. Estes são números declarados publicamente em 2025:

EmpresaSetorMargem líquida
Vicunha TêxtilLíder brasileira em denim0,15%
JBSMaior frigorífico do mundo2,3%
Arcos DoradosOperadora do McDonald's4,5%
RiachueloVarejo de moda4,9%
Lojas RennerVarejo de moda10,9%

A Coteminas e a Companhia Tecidos Santanense, duas têxteis tradicionais do país, estão em recuperação judicial. A Fertilizantes Heringer fechou 2025 com prejuízo de R$ 172 milhões — e pagou tributo sobre consumo em cada saco de adubo que vendeu, porque esse imposto não pergunta se a empresa ganhou ou perdeu dinheiro.

Há um caso ainda mais revelador. Dos US$ 212 milhões de lucro que a Arcos Dorados declarou em 2025, US$ 159 milhões foram benefício fiscal no Brasil. Três quartos do lucro do McDonald's na América Latina não vieram de vender lanche: vieram de crédito tributário. Sem ele, a margem cai de 4,5% para 1,1%.

Não existe gordura para cortar no meio da cadeia. O que existe é uma carga tributária que sufoca quem produz e é repassada para quem compra.

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